Sunday, April 11, 2021

Serviços de inteligência, controle de narrativa e a Lava Jato

 


Uma coisa interessante sobre economia, é que não é incomum que
aquilo que se convêm chamar de “livre mercado” seja na verdade uma dimensão muito
específica de uma operação de inteligência de escala maior. Isso pode ser desde
um projeto de pesquisa sendo financiado por algo como o Human Ecology Fund (uma
fachada da CIA na Guerra fria) , ou o Kaiser-​Wilhelm-Institute – KWI (que suportou
o Mengele em algumas pesquisas mais assustadoras do período, e era talvez uma
fachada da SS). 

Aparentemente é financiamento privado de pesquisa mas ainda hoje num pós-guerra fria quando o uso de fachadas diminuiu, o financiamento privado por vezes na verdade é um contractor de algum governo. Na medida em que financiar desenvolvimento tecnológico sem governo,é meio fora da realidade, até o Starlink (relativamente autonomo de governo) se beneficia de tecnológia desenvolvida no contexto do DoD. 

Skeletons in the Closet of German Science | Germany| News and in-depth reporting from Berlin and beyond | DW | 18.05.2005

Unwitting CIA Anthropologist Collaborators: MK-Ultra, Human Ecology, and Buying a Piece of Anthropology | Cold War Anthropology: The CIA, the Pentagon, and the Growth of Dual Use Anthropology | Books Gateway | Duke University Press (dukeupress.edu)

Interessante é que nos dois casos  de financiamento de pesquisa, e em muitos outros as
conexões são tão indiretas entre a estratégia nacional maior, e a ponta final; que as pessoas envolvidas costumam sequer ter ciência do que de fato está acontecendo,
e qual sua função na engrenagem maior da qual fazem parte. Ou no mínimo não tem ciência do racional do por trás do que estão fazendo, e isso se traduz com o tempo em relatos confusos tipo o do John Perkins em “Economic Hitman”, sendo justo, tem algum tempo
que li o livro – então é bem por alto. No livro ele se descreve como um
consultor envolvido com projetos de construção pelo oriente médio, toda a
narrativa é bem intricada, talvez uma consequência de um trabalho em que o cara
cumpre missões, sem saber exatamente os “porquês”.

No geral a narrativa do Perkins gira em torno de contratos com construtoras americanas via embaixada no oriente médio...enfim é bem parecido com o que se tenta atribuir ao One Belt, one road hoje em dia.

E esse tipo de personagem, com histórias intricadas e meio
surreais, é uma figura relativamente comum quando você começa a pesquisar sobre
estruturas de inteligência e a operacionalização de estratégias de
inteligência.  

Talvez  seja daí que venha muito do que é o imaginário
em tornos das agências de inteligência hoje em dia.



Na sequencia uma perspectiva inicial sobre os pontos que o Le monde trouxe ao debate recentemente, colocando Lava Jato como peça em uma estratégia maior remontando aos tempos do Dick Cheney na Casa Branca.

"De um lado tem um set de interesses bem estruturados...do outro um idealismo perdido do judiciário BR, que acaba sendo instrumentalizado num vazio de coordenação da inteligência local...

Aliás a operacionalização de Inteligência no Brasil é
historicamente  problemática, já que por
tradição ela se limita a olhar para questões internas, e agrega pouco ou nenhum
valor num contexto internacional.

Na prática é como se serviços desde o SNI até a atual ABIN
tenham sido muito bons numa dinâmica de FBI (inteligência interna), mas por
aqui nunca houve nada de Intel externa como a CIA.

Nesse modelo essas estruturas locais acabam lidando com
problemas parecidos  aos de suas
equivalentes americanas, o próprio FBI tem uma história conturbada em relação a
perseguição de 'comunistas' dentro dos EUA, no mesmo período que o SNI
implantava uma estratégia parecida no Brasil.

Mas pela propria dinâmica das estruturas de Intel americanas
isso acaba contrabalanceado por uma defesa dos interesses nacionais vindas da
CIA e do DoD( que em termos Intel tem alguma independência).

Nessa discussão da Le monde, tem muita coisa que é do jogo,
mas pela inexistência de estruturas de intel o Brasil não soube se
proteger...daí procuradores cheios de boa vontade, e na busca por um
greencard/F1 são instrumentalizados para destruir a Odebrecht que em seu pico
foi um maiores empregadores do Brasil...é tipo destruir a
Boeing/Teledyne/Raytheon.... por fazer lobby.

O Brasil deveria ter o operacionalizado o Itamaraty para
Intel externa, enquanto a ABIN...não se sabe para que serve, mas ao que tudo
indica poderia ser internalizada na PF sem maiores prejuízos.

Poderia numa operação de contra inteligência relativamente
simples ter contornado muitos dos problemas que a Lava Jato gerou e até mais
recentemente ter evitado muitos fiascos gratuitos aos quais esse governo tem se
exposto.

Intel interna e externa, são apenas algumas dimensões nas
quais o Brasil é carente, um dos maiores problemas mesmo é o total vazio que
ocorre quando se fala em cyber.

Por outro lado  pelas
falas do generalato contextualizadas pelos currículos da ESG/ECEME, que parecem presos na década de 60, é difícil ver um quadro de mudança. 

A Marinha e a Fab tem um perfil mais técnico (parte da formação acontece em instituições civis), mas por hora
carecem de direcionamento...interessante que alguns quadros até já possuem o
background técnico que seria necessário, mas não encontram espaço dentro das
forças.

 

“Lava Jato”, the Brazilian trap (lemonde.fr)


   Originalmente no Facebook Daniel Rodrigues Parente | Facebook "





























Conforme menciono no post do FB as estruturas de inteligência, historicamente
tem cumprido um papel confuso no Brasil. Mas se você olhar as questões internas
dos EUA nas décadas de 40- 60, que envolvem desde perseguição de jornalistas e
cineastas (na terra do tio Sam Disney Link To the F.B.I. And Hoover Is Disclosed - The New York Times (nytimes.com)), começa a ficar claro que direta ou indiretamente
por aqui o exército importou um problema que talvez nem existisse (o foco não é
se existia ou não, mas como o golpe de 64 se encaixava na estratégia global
americana do período e refletia questões internas dos EUA
)
, mas no final das contas a manutenção do factoide e o
fato do Brasil não ser mais um foco de preocupação para os EUA na década de 60...era
interessante pra embaixada e pra estratégia global e até interna dos EUA em vigor naquele período [o texto sobre o W Disney dá uma boa visão sobre a dinâmica interna do FBI nos EUA]

Em geral tanto a esquerda quanto a direita brasileira,
cinicamente ignoram a confusão global que era o mundo em 1964, e como o Brasil era peça secundária.

É interessante olhar brief presidencial americano, pra contextualizar o quadro global do momento.

Até pra contextualizar como a discussão da Guerra Fria aparecia na politica interna americana daquele período, e o Golpe no Brasil dividia espaço com a guerra do Vietnã em termos de atenção politica e midiática. Fora que era ano de eleição.

CENTRAL INTELLIGENCE BULLETIN | CIA FOIA (foia.cia.gov) para 1 de abril 1964
CENTRAL INTELLIGENCE BULLETIN | CIA FOIA (foia.cia.gov) para 2 de abril 1964
 
Nessas idas e vindas, o que quero estabelecer é que até recentemente
muito da execução da estratégia de inteligência era em alguma medida se
esconder jogando o enfoque em questões mais secundárias, do tipo se “existia ou não uma
ameaça comunista no Brasil em 1964?”.. quando na verdade o que importava era o
neutralizar o risco local, para focar na estratégia global e em alguma medida gerar conteúdo pra propaganda politica interna nos EUA.

Até que ponto a construção desse argumento tem origem autonoma no SNI, na embaixada ou propria mídia local no periodo? Carece de uma contextualização histórica, mas o Jango já vinha enfraquecido politicamente.



Com isso em mente dá até pra começar a visualizar, que o
problema ai é mais uma questão de que na época os militares brasileiros assumiram que “sim existia uma ameaça local”, não por de fato haver uma ameaça,
mas sim pelo que eles ganhariam seja na forma de poder, projeção midiática...
e
sendo militares pelo hype em torno da interação com a inteligência americana. Não importa o que é verdade, mas o que a narrativa que eles assumiam lhes dava. 


Essa
dimensão mais humana por trás dos grandes eventos é interessante, porque até hoje
essa disposição pra cooperar tem um papel importante no aliciamento de ativos
pelas agências de intel (principalmente americanas[ palestra acima dá uma boa perspectiva]) Policing the Past: The CIAand the Landscape of Secrecy - Richard Aldrich - YouTube...

Transitando um pouco entre passado e passado recente, pra por em perspectiva até que ponto houve intel externa na lava jato.

Enfim o
caso da Lava Jato descrito pela Le Monde é interessante porque você tem um
judiciário que idealiza o sistema americano, com isso uma disposição pra
cooperar, fruto de um soft power quase natural.



Em última instância qualquer impressão positiva, é
soft power
, isso gera uma abertura com efeitos econômicos interessantes. Seja na
sua disposição de pagar para estudar nos EUA, - e pelo sistema de vistos atual, isso é pura transferência de renda de qualquer país para os EUA -  ou mesmo quando
um país se alinha a outro por uma afinidade cultural, que não faz sentido
economicamente.

Hoje é interessante  falar disso porque você viu o brasil, perseguindo um alinhamento econômico com os EUA, que
girava em torno de um alinhamento cultural "soft power" (todo mundo viu os mesmos filmes, estudou nas mesmas universidades), mas no final das contas apesar de toda
a tradição canavieira do interior paulista o Brasil ia acabar importando etanol
americano feito à base de milho.Brasil renova tarifa zero para importar 187,5 milhões de litros de etanol dos EUA até dezembro | Política | G1 (globo.com)



Fala-se bastante em soft power, mas não existe uma preocupação
clara em definir soft power, quanto ele rende ou mesmo quanto ele custa. 

Quanto o brand de Brasil perdeu em valor, e quanto a Coréia do Sul ganhou nos últimos anos? Essa comparação é interessante porque a produção e exportação de novelas [ e cultura de modo geral] é ponto importante nos dois países,mas isso tem se desenvolvido de modo mais eficiente no modelo de novelas curtas Sul coreano, que formou uma indústria e se profissionalizou [no Brasil tem a Globo e quase nada fora dela].



De modo geral, até para retomar o ponto principal: a
inexistência de uma estratégia de inteligência externa custou caro para o
Brasil, basta pensar que no seu pico todas as construtoras arrasadas pela lava
jato figuravam facilmente nos maiores empregadores do país. E, bom, ainda que
em alguma medida seja legítima a contenção de corrupção, faltou ao Brasil uma
operação de contra-inteligência externa que conseguisse colocar em perspectiva até
que ponto essa caça aos corruptos não estava sendo usada numa estratégia maior.

Chinese Methods for Industrial Espionage - YouTube Nessa questão da estratégia maior tem uma perspectiva do operacional disso no contexto da China a partir de 13m até 30m.

Essa questão de China é interessante porque a operação de Intel desde o fundamento,na diretiva do partido, tem foco na geração de valor economico, mas quando vocé olha falas de operativos do UK/US o foco é em defesa e segurança nacional e a dimensão de geração de empregos só aparece quando discussão chega ao congresso, com o lobby em torno das fábricas e de empregos. Enfim são diferentes modos de pensar o uso de intel.

A panel on espionage - The New Yorker Festival - YouTube Chamaria atenção pras falas da Stella( ex diretora do MI5)que reflete essa questão de segurança nacional, e UK é um arcabouço regulatório mais replicavel. 

Pensando num possivel desenvolvimento no Brasil o modelo de intel Chines com foco economico faria mais sentido por aqui.

No caso americano ,por eles já controlarem o sistema financeiro ( ver a sanção que o DoJ aplicaria na Odebrecht (conforme texto da Le Monde) , e vem aplicando em executivos chineses) isso dá margem para as estruturas tradicionais de intel ignorarem essa dimensão, já que o próprio DoJ tem capacidade de executar isso

 How Donald Trump has targeted Chinese companies with executive orders, sanctions | South China Morning Post (scmp.com) - Descreve as sanções à empresas chinesas sob Trump. o Biden tem focando o uso das sanções em indivíduos (caso da Carrie Lam Cheng Yuet-ngor citado nesse texto), geralmente diretores dessas mesmas empresas (o que em temos de discurso, é mais administravel do que a perseguição estrita que o Trump vinha tocando).



Os países precisam de estruturas que lhes permitam entender por
que as dinâmicas globais estão se desenvolvendo de determinado modo, quais os
sets de interesses envolvidos, até para que possam direcionar as discussões num
sentido que lhes seja favorável. E históricamente a inteligência externa tem atuado nesses gaps.



É fácil hoje para o Brasil e para França (afinal o Sarkozy
também tá preso hoje em dia[acho que por uns motivos mais aleatórios]) quererem
buscar um inimigo externo, mas tem muita coisa no texto da Le Monde que é natural ao jogo político
entre nações, mas para as quais o Brasil não estava preparado
, afinal pra além da questão quanto a se
existia ou não uma coordenação de intel externa no desenrolar da Lava Jato... o
fato é que a estratégia só avançou porque encontrou espaço numa galera mais
jovem do judiciário, e ao que parece não
tinha ninguém pra colocar isso na perspectiva de que os EUA vinha numa
estratégia maior de guerra ao terror, e proteção as empresas americanas desde 2001
e do governo
Bush/Cheney.


Ponto interessante que a Le Monde deixa de fora, que talvez tenha tido um peso importante é a relação que o Lula vinha desenvolvendo com o Ahmadinejad em 2009. Pelo curso que a história tomou de lá pra cá, talvez o peso dessa interação tenha sido maior do que a se poderia mensurar na época. Fica um questionamento se GSI/ABIN/ITAMARATY tinham alguma estratégia nessa relação naquela época?

Lula recebe Ahmadinejad em meio a polêmica - BBC News Brasil 

Com mais detalhes do governo Bush/Cheney se tornando públicos nos últimos anos, fica claro que pelo background de DoD-Halliburton o Cheney era bem ativo na operacionalização de intel nesse periodo, com o foco em oriente médio.

 


Por mais que eu adore Night Train to Munich(1940), The
Ambassador(Morris West)
... uma parte importante do trabalho de intel hoje é
o controle da narrativa de modo a gerar esses efeitos soft power, seja a CIA
negociando com editor de revista como vai ser a cobertura dada ao Venture Capital
deles (In-q-tel) Gilman Louie: In-Q-Tel andFunding Startups for the Government - YouTube, ou ainda  promovendo
discussões internas em relação a como eles aparecem em hollywood e decidindo
assumir uma posição mais cooperativa[Palestra no primeiro video],
essas são hoje as faces mais visiveis ( e razoavelmente bem aceitas) das operações de intel, em contraponto ao modelo mais 007. [o controle da narrativa]

Em outros termos:é mais Vice (2018) que qualquer 007. Em termos de conduzir o debate e a narrativa de modo mais palatável. 



É claro que as interações CIA-Mossad para coordenar eventos no Iran ainda estão aí, mas sobre essas ninguém fala
publicamente. 

IranianNuclear Scientist Mohsen Fakhrizadeh Killed By 'Terrorists,' Iran Says : NPR

Qasem Soleimani: US kills top Iranian general in Baghdad air strike - BBC News



De modo geral o problema do Brasil não é a interferência
americana, mas sim o fato do Brasil não estar preparado para lidar com essa
interferência.

Em outras palavras, num exemplo mais direto, por quê e como  o DoD consegue defender publicamente um
contrato de defesa que é irracional (Nuclear disarmers can’t forget the communities that rely on military spending - Bulletin of the Atomic Scientists (thebulletin.org)) enquanto aqui no Brasil... 

o
que resta da indústria de defesa emprega muito pouca gente (o que resta da Odebrecht
Defesa – Atual SIATT – emprega por volta de 100 pessoas...em EUA qualquer
contractor médio deve gerar pelo menos uns 10mil empregos)
 

 ...quando isso
chega no debate público tudo caminha para conservadorismo fiscal?! Bom, muito
disso passa pelo controle da narrativa no debate público, que no caso brasileiro do exemplo inexiste , mas o pessoal da Lava Jato soube usar isso.

SIATT na TV Vanguarda - YouTube

Defense Primer: Department of Defense Contractors (fas.org) 

O UK em termos de proporção ainda é um pouco menor,em relação ao US mas esse relatório dá uma perspectiva interessante do setor por lá. E é mas fácil achar dados consolidados por lá

Defence and Security Industrial Strategy (publishing.service.gov.uk) 

Essa estrutura dos contractors, é interessante porque mesmo extrapolando o DoD (algumas mais especificas acabam sobre outros departamentos como o DoJ) umas boas parcelas do budget dos serviços de Inteligência, por baixo uns 30% acaba em intel outsourcing logo acaba sendo mais verba do budget para defesa/complexo industrial militar por fora do DoD.

(1) Are the CIA, DIA, NSA, etc. under the Department of Defense, or under some non-military governmental agency? - Quora

 

Home (intel.gov) --Hub Oficial

 



Ainda no âmbito de direcionar as discussões globais num
sentido que seja favorável ao Brasil, dependendo de como a dinâmica EUA/China
caminhar nos próximos anos é interessante que o Brasil esteja preparado para
lidar com interferências externas, e mesmo tirar vantagem das dinâmicas confusas
que emergem nesses desequilíbrios globais,
e aqui a Suíça talvez seja o caso mais
clássico de ter sabido se posicionar em momentos de confusão global,
pra
conseguir capturar algum upside...turns out that being neutral was a good
business back then
, mas o Brasil vai precisar de estruturas de intel pra
conseguir entender o que tá acontecendo e capturar algum gain nas dinâmicas
globais.


Por fim deixo essa conversa, que mesmo não diretamente ligada a intel, passa um pouco pelas discussões que rodeiam o tema. E fala um pouco de como essa dimensão de intel é importante para uma estratégia nacional, até pelo progresso gerado pela competição entre países.  Em outra dimensão dá pra ver um pouco da militarização do espaço  que está em curso atualmente, tanto em China quanto em EUA.



Tuesday, March 23, 2021

Racionalizando a conta em USD

Um ponto pra se pensar a respeito de um sistema de conta em Dólar é que o muito da arbitragem hoje é mais em termos de...

Posted by Daniel Rodrigues Parente on Tuesday, March 23, 2021


Crise econômica, como sair | Grupo Aço Cearense | Valor Econômico (globo.com)   - Eu gosto de como ele encara o ganho de renda das classes populares,  enfim a operação dele depende do USD, mas é uma visão interessante. E de modo geral vai um pouco além do quanto pior melhor no câmbio, que domina o debate. E é um texto antigo já.


23º Encontro FnP - Investimentos Alternativos (Pátria e private equity) Lá pelas tantas (52min e 57m) ele aborda brevemente o planejamento da saída em investimentos de longo prazo, e como o câmbio pesa no planejamento, e na demanda por rentabilidade. 

O modelo de lavagem do exemplo é até sofisticado, porque diferente do usual que é uma operação puramente financeira onde o dinheiro viaja entre contas de diferentes empresas de fachada em diferentes jurisdições, nesse exemplo a linha entre o que é um empreendimento real,  e uma operação de lavagem de dinheiro é bem tênue e diferentes partes da operacionalização se concentram em diferentes jurisdições. Então é bem difícil construir um caso, já que exige uma cooperação internacional que pode não ser interessante para algum dos países envolvidos, dependendo do tamanho do esquema.

No mais, eu assumo que um modelo restritivo a posse de moeda estrangeira, leva capital local para outras jurisdições. As vezes em canais oficiais, e regulamentaod, e também por canais extraoficiais que podem ser mais baratos, ou menos burocráticos.

50bi de Motivos para repensar o Brasil Também é de se considerar, em que medida as elites locais estão fugindo de imposto ou se protegendo de perda câmbial(parece dominante no caso brasileiro [até porque o dinheiro costuma acabar nos EUA,ou coisa do tipo, mesmo com jurisdições fiscais mais favoráveis]).

The paradox of banknotes: understanding the demand for cash beyond transactional use Em relação a operacionalização de uma moeda de reserva, isso gera certas distorções e dá certas vantagens que começaram a ganhar destaque com a discussão de MMT,é um ponto que preciso desenvolver melhor ainda, mas a ideia é que como todos são demandantes de USD o FED - e cada vez mais o ECB - controlam uma ilha que abarca o mundo inteiro. Vai ser interessante ver em que nível, e como a liquidez dos estimulos atuais vai transbordar pelo mundo. O texto olha pra uma dessas dinãmicas, quando o nível de papel moeda nao afeta o nível de transação.(Lembrando que papel moeda é dinheiro anõnimo, evade sanções, e pode dar duas voltas ao mundo antes de ingressar no sistema financeiro que pede id e compliance com regulação americana).


Bom, sigo na minha quest em torno do euro-dollar, até para justificar a dinãmica de depósitos e empréstimos entre moedas(na imagem THE EURO-DOLLAR MARKET:
AN INTERPRETATION - ALEXANDER K. SWOBODA) . Na média é bem gray area, nesse texto do IMF The Euro-Dollar Deposit Multiplier: A Portfolio Approach : IMF Staff papers : Volume 21 No. 2: na revisão de literatura/introdução o espectro amplo de multiplicadores (1.5-18) encontrados dá um horizonte do nível de incertezas. Diferentes bancos, diferentes estratégias e pouca/nenhuma regulação resultam num mix interessante.



Thursday, March 18, 2021

O futuro nômade e o mercado de náutica


 

As dinâmicas de trabalho remoto se tornaram mainstream em
2020, e embora seja incerto o quanto 
disso vai sobreviver na medida em que entramos num cenário de pós-covid,
é interessante que em paralelo a isso observamos o desenvolvimento de tecnologias
como o Starlink.



Faz parte da essência humana o nomadismo, ainda que isso não
supere a busca pelo que é cômodo. Na medida em que a agricultura se estabeleceu
como uma via cômoda, os povos antigos estabeleceram settlements nos arredores
do Nilo, e mesmo nas américas a intensa presença de fauna e flora frutífera facilmente
acessível ao longo de todo o ano sempre favoreceu a busca pelo que é cômodo.



Ao longo da próxima década veremos a formação de uma
intersecção que vai dar origens ao nomadismo cômodo. Na medida em que o trabalho
remoto, com boa remuneração em moeda forte se torne acessível as massas
populares, e com significativos avanços nas estruturas de comunicação offshore (Starlink)
a tendência é que observemos intenso crescimento em algumas indústrias
altamente nichadas, carentes de consolidação e que pelo modelo artesanal imperante
hoje são a definição de mato alto(ineficiências).



O caso mais interessante é o setor de náutica não industrial,
em geral estaleiros focados na construção de veleiros de até 80 pés.



Players dominantes são majoritariamente europeus – O mercado
americano parece focado na náutica de curta distância a base de diesel – na média
com marketcap por volta dos 100 mi EUR.



Com o trabalho a distância ficando mais acessível, e
pacotes de dados para regiões remotas ficando mais baratos com a introdução do
Starlink, em algum momento algum programador que já trabalha remotamente, vai
virar a chave, e no momento que ele conseguir acessar o combo stackoverflow+youtube
no meio do atlântico, ou em alguma ilha remota do pacífico, é difícil achar
algo que acabe inviabilizando o sonho nômade da humanidade, hoje limitado a
aposentados, empresários distantes da gestão de suas empresas, e cada vez mais
youtubers que conseguem contornar as limitações de comunicação ficando
restritos a costa europeia.





Pontos para se olhar no setor:



- A eletrificação é uma tendência, porque motores a diesel
tem uma operação cara, e são barulhentos, o que é um problema para embarcações
menores.



- A tecnologia de baterias que vem sendo desenvolvida para
automóveis, ainda não se apresentou plenamente na náutica.



- A maioria das empresas é pequena o suficiente, para que o
risco delas deixarem de existir na próxima década seja considerável.



-É um mercado bem artesanal, já que por hora não tem muita
margem para ganhos de escala. (bem parecido com o que acontece atualmente com
as telas eink com mais de 6polegadas [não tem demanda para ganhos de escala, já que a maior demanda vem hoje do kindle que é 6 polegadas]).

Update:Sobre o mercado de eink:a Amazon com o kindle, tem o o poder de mercado de movimentar toda uma cadeia de supplier, de um modo que só Apple e Samsung [nesse caso é até interessante porque ela controla o processo da engenharia de produção difernte das americanas, mesmo quando fora da Koréia] tem no mercado de smartphone em geral. Por exemplo Apple ou Samsung podem conseguir um projeto de capacitor/chip smd espécifico, pelo tamanho do pedido, enquanto uma Asus lançando um smartphone fica limitada ao catalógo dos suppliers, já que o tamanho do pedido é menor. Isso começa a ficar claro olhando como telas com notch ficaram populares por um tempo. E sobre Samsung, ela tem tem certo poder de supplier, pra além do poder de cliente como as demais bigtech, tanto que é o principal concorrente da TSMC.

Em relação a controlar/dominar o processo fábril acaba sendo uma questão mais de qual stakeholder é mais importante:o acionista em busca de dividendos/"growth" (bigtechs americas) ou governo local (Samsung e contratos de defesa americanos).Olhar uma Boeing é até interessante porque a defesa opera de um modo (processo fábril centralizado [DoD guidance]), mas o 787 na parte civil é case de globalização e cadeias de produção descentralizadas. 

Nuclear disarmers can’t forget the communities that rely on military spending - Bulletin of the Atomic Scientists (thebulletin.org) ( Um pouco sobre DoD guidance, e dinâmica de Lobby nos EUA)

Marcel Campos - Head of Global Marketing Operations and South America Marketing Director at ASUS North America. ( ele tá bem posicionado, pra dar uma perspectiva sobre desenvolvimento de projetos como um smartphone)

ePaper displays in 2020 - a market snapshot | E-Ink-Info.com (o título é auto explicativo)

How I Made My Own Android Phone - in China - YouTube  (cena tech em Shezen, a parte mais fábril e que vai pro aliexpress.A versao chinesa do edifício Central [Sta Efigêntia p/ Paulistas])



-Se virar mainstream, ou acender uma luz no Elon Musk, um veleiro tesla elétrico dominaria o mercado relativamente fácil. Até porque tem bastante mato alto na fase
de produção, e a Tesla tem conseguido se acertar em termos de processo fábril. Então qualquer coisa de 30pés com um preço razoável e o brand da
Tesla chamaria atenção.



-O mercado de modo geral hoje se divide entre esporte, veleiros
para travessias tranquilas (a maioria dos players listados se encontra nessa
classe), e veleiros para travessias intensas (Bluewater cruise). Isso porque a
realidade de mar numa à volta ao mundo pela linha do equador e pelos polos é
distinta (lembra do Cabo da Boa Esperança[Bartolomeu Dias]?é um dos motivos pro
canal de Suez existir).



Olhando alguns catalógos desses boatbuilders, na média com
algo entre 300-800mil USD você já compra uma casa razoavelmente luxuosa, colocando
na conta a loucura em que os mercados de realestate se tornaram no mundo rico,
e o fato de que isso vai acabar sendo uma compra, onde as pessoas vão poder de
fato morar com o advento de pacotes de dados acessíveis para offshore, pode ser que
estejamos no limiar de algo realmente interessante, em termos de humanidade e de mercado, ainda mais porque essas
empresas,  hoje,na média são equivalentes a See's Candies no momento em que o Buffet faz
a compra, qual delas vai capturar esse mercado é uma questão. E outra questão é
que elas estão na contramão dos inflows de capital rumos aos mercados
americanos,pois Europa, a maioria nem aparece no OTC Market.

Update 3: Mesmo no exterior o mercado gira bastante ao redor dos usados, então, por mais que 300mil usd/eur pareça bastante, o ticket médio hoje (num cenário em que a geração de renda a bordo é limitada), vai na verdade ser algo entre 50-250mil EUR. 

Sobre o Brasil, politicas iracionalmente restritivas a importação de barcos usados no âmbito da RFB fizeram o mercado de veleiros caminhar rumo a construções artesanais, em fundo de quintal (não no sentido perjorativo, é que pessoas realmente constroem suas embarções no quintal das casas [até mesmo embarcações pra pesca]). E olhando eventos do tipo boat show, predominam embarcações a diesel (parecido com o cenário americano, mas se por lá o "B.o.a.t. stands for Bring on another thousand" já é forte, por aqui seria mais "trais mais 10k", botando na equação câmbio e custos locais), então essa ideia de brinquedo caro para uso eventual, é dominante.

Sintése: O racional é que a possibilidade de gerar renda a bordo, via estruturas de comunicação acessiveis vai causar a expansão do mercado. Com mais gente enxergando isso como racionalmente possivel, o mercado de náutica recreativa, que hoje é ínfimo, vai invariavelmente ter um boom de marketcap. 

Eu tava começando a racionalizar isso, pensando em Garmin e Raymarine, a primeira é grande, mas tem toda uma parte de GPS que não essencialmente tem conexão com náutica; já a segunda é também um player importante na cena de autopilot, já foi listada independentemente, e hoje esta perdida dentro de um conglomerado militar (Flir Systems) que não sabe muito bem o que fazer com ela, já que ela é infima comparada as receitas que eles em tem em contrados com o DoD. 

Por quê eles compraram? Parece que tinha toda uma lógica de transformar tec de imagens (tipo visão noturna e térmica), um produto essêncialmente militar, em algo com aplicação civil. Ao que parece não deu certo e Raymarine seria vendida novamente, mas como as noticias são de janeiro de 2020, e nesse meio tempo teve a pandemia, e eles foram comprados pela Teledyne ( um outro player na cena de DoD contractors), que tem alguma coisa na parte de náutica civil, por hora o futuro de Raymarine é bem incerto.

Toda essa coisa Teledyne e Flir, tá girando em torno da consolidação dos DoD contratos, ano passado teve a United Technologies (um pouco de tudo:de ar condicionado [Carrier] a motor de avião[ Pratt & Whitney]) que fundiu com a Raytheon (Mísseis). Isso vêm numa linha de que o Trump tinha posições estranhas em relação ao complexo indústrial militar, e sempre que um Democrata se elege a impressa americana começa vender que o budget do DoD vai cair, quando na prática é bem segue o jogo. 

De resto tem um player japonês (Furuno) listado no Japão sem liquidez no OTC, e um outro alemão fechado. Isso pensando pensado na parte tec de náutica, com algum foco nos sistemas de autopilot.  

Alguns players listados (Boatbuilders) 

Buy a Yacht - Made in Germany | HanseYachts AG

Sailing yacht and motorboat builder | BENETEAU boat builder

Fountaine Pajot | Catamaran à voile de luxe et Motor Yacht (fountaine-pajot.com)

Players de BlueWater cruise, não listados porém interessantes (pela construção diferencida tendem a ser mais caros).

Home - AMEL

Iconic Sailing Boats & Yachts for Bluewater Sailing | Oyster Yachts

Hallberg-Rassy bluewater cruising yachts

NautorSwan

Player interessante na eletrificação da náutica

Oceanvolt




Crazy Costs of SuperYacht Internet 2020 ($900k for...) (a comunicação entre satélites parece que tem sido endereçada nos últimos lançamentos, mas nesse instante [março/2021] tudo está em beta ainda. Só pelo fim do ano até a metade 2022, é que o Starlink deve ganhar mais espaço nos trends sociais).

Aliás, indústria europeia (em relação a náutica).

Me encontro em estado de  'testando Microsoft sway' logo segue a pesquisa em estado meio bruto, compartilhada através delea qui 


Tuesday, March 2, 2021

Finanças de bilionário, divida pública e politica fiscal


Um dos argumentos mais frequentes no discurso dos
conservadores econômicos, em política fiscal, que é repetido de forma cega é a ideia
de que em algum momento as contas precisam fechar. Tal qual nas finanças
domésticas. A bem verdade, o atual quadro da dívida mundial é a prova cabal de
que as contas sequer devem fechar.



Toda a dinâmica do sistema atual é baseada no lastro em dívida
pública, alguns mais ousados falariam em dívida AAA, mas sendo objetivo a LVMH não imprime moeda. Esticando esse argumento é possível que em algum momento,
isso volte a causar conflitos na zona do Euro (não na Europa).



Quando pensamos em dívida pública geralmente o mindset é
pensar em “porque deu errado para alguns países?”, porém é mais interessante
pensar o porquê de alguns mercados terem dado tão mais certos do que outros?



Esse argumento ainda está em construção, e possivelmente
será atualizado.



No mundo moderno é fator comum para esses países, que deram
muito certo, que em algum momento eles tenham lidado com algum influxo de valor
muito forte, oriundo do exterior. Em termos de história recente Iceland é um
caso particularmente interessante, até porque em comum com outros países da
minha análise ele tem o controle sobre a própria moeda, mas permite conta em dólar. 

Update:(Ponto no paragráfo anterior: Primeiro ponto - O impacto do Influxo na entrada)



 Outro momento
importante para se analisar, é a formação do mercado de eurodólar no UK das décadas
de 50-60. Onde existe todo um influxo de moeda externa para o UK, que entre
outros objetivos, acaba resultando num enfraquecimento da libra. No contexto
desse mercado, você ainda tem a dinâmica desse dinheiro se mover rapidamente pelo
mundo.



Update: Lendo o Eizing(Paul), London tenta assegurar sua posiçao como centro financeiro (quando o dolar vira o mainstream financeiro) , isolando a libra mas assegurando o papel dos bancos Londrinos nas finanças internacionais.

Update2: Com o desenrolar do Brexit , "It's happening again" como trade de ações já não é a anos o carro chefe de Londres,a ideia agora é preservar preservar os futuros de commodities Ministers plan overhaul of capital market rules to boost City | Financial Times (ft.com) Em termos de commodities e pauta de exportação muito se fala em China/EUA, porém nesse aspecto para o Brasil os Países Baixos também são um parceiro importante, e com o Brexit Amsterdam vinha crescendo.


Dois países, que eu ainda estou revisando a literatura (em
estágio inicial), são Suíça e Japão. Na Suiça, o influxo de valor estrangeiro é
histórico, e se confunde com toda a dinâmica de dinheiro antigo europeu.  

O Japão
é caso mais recente, mas pelo modo como ele foi uma potência local em um período
que a economia da região esteve bem quebrada, isso aliado a introdução do
sistema bancário americano na região, deve ter gerado algum influxo dos países
da região (carece de verificação). Em comum essas duas moedas (JPY e CHF) são peças
importantes no modo como o mercado de FX se estrutura hoje (O dolar é majoritário, mas estes são pares relevantes), para além disso o
JP é exemplo claro de dívida impagável.

Update:Pro JP principalmente, o peso do softpower na relação com os EUA garante um influxo rumo a bolsa local. 



Olhando para o caso, em que atualmente eu estou mais
adiantado em literatura que é o UK, com o tempo esse capital se moveu para Tax Havens
britânicos (Jersey, Ilhas Cayman...) e a Icelando estatizou a parte mais local
do sistema financeiro ( isso quando depois de 2008 o fluxo de saída causou problemas no sistema financeiro local).

Update:( Ponto no paragráfo anterior: O que aconte após o influxo)  



Nesse contexto o quadro europeu é interessante, porque
alguns países conseguem desenvolver credibilidade para servirem como reserva de valor (em sua moeda ou no dolar) e esses se mantém com suas moedas, outros que falham em desenvolver
essa credibilidade passam a integrar o sistema franco-germano do euro. Tem a Itália
também mas como, meu foco principal é tax haven, o Vaticano e seu banco são uma
estrutura mais difícil de analisar, pra além disso a Itália falha nessa
construção de credibilidade.

Update:( Clarificando o paragráfo anterior: se o país falha na construçao de credibilidade própria abrir mão da própria moeda pode oferecer ganhos).

O Banco do Vaticano é uma dinâmica mais histórica que atual (ao menos aparentemente).



Esse é um ponto, interessante para entender o estado das
finanças globais na atualidade, é bem difícil achar alguma Fortune 500, que não
tenha subsidiária em alguma dessas jurisdições ou em Delaware, e demais equivalentes americanos. (Paragráfo se refere a citação na imagem)

E esses tax havens, precisam da exposiçao ao sistema de leis de suas ''mainlands'', até pra ter credibilidade que serve como uma layer de proteção em caso de litigio. 

Update:( Clarificando o paragráfo anterior: a ideia é que os sistemas financeiros de tax havens tem limites sistêmicos no que se refere a ser autonômo).



Vou deixar, isso em aberto por agora pra retomar o ponto
principal,
até porque em termos de avanços de pesquisa (de tax haven) é por aqui que estou.



Boa parte do capital mundial, reservas financeiras estão
baseadas/passam por esses lugares (tax havens) em direção as taxas de juros mais
interessantes. Se você lembrar que os principais fundos de investimento, em
termos de tamanho são os fundos de pensão, não é interessante para ninguém que
grandes economias tenham dívidas saneadas. Com os juros nos níveis atuais a situação
já é suficientemente complicada.



Quando você olha para uma dinâmica de dívida é melhor pensar
nas finanças de um bilionário. O Zuckerberg cria uma empresa de 700bi USD, mantém
a posse de 10% (valor hipotético, porque não é relevante para o exemplo), e usa
esses 70bi como colateral para ter acesso a empréstimo barato, para as despesas
cotidianas (se ele fosse de fato vender as ações, ele teria que abrir mão das
Golden Share dele). Digamos que desses 70bi ele consiga, em uma análise de
risco, transformar num empréstimo 10%, até porque ações oscilam então nunca
será 1 para 1.



Se a ação de Facebook continuar subindo, dependendo da taxa
de juros, que é ínfima ainda mais atualmente ele pode refinanciar esse empréstimo
basicamente ao infinito e além. Similar a dinâmica de mercado imobiliário americano
que estoura em 2008
, porém como o risco desses caras quebrarem é quase nulo,
essa bolha não estoura (a não ser que o cara seja russo e desenvolva uma inimizade
com o Putin, nesse caso um banqueiro que provavelmente é Suiço ou Londrino com
operações no Cyprus vai ter um problema). 

Para além disso é difícil ver um cara
como o Zuckerberg gastando mais de 300mi USD/ano, como pessoa física o. A
não ser que ele que ele queira comprar um Yacth, daí provavelmente teríamos uma
rebelião de acionistas, mas para esse perfil de networth boa parte dos gastos a
empresa paga. Pensando por esse lado, fica fácil entender por que a Cargill não
é pública até hoje, assim como boa parte do Agro Brasileiro.

Update: Tem toda uma discussao histórica sobre o que a empresa paga,e o que é gasto pessoal. Principalmente no que se refere ao uso de jatos corporativos. Essa discussão esfriou, mas de vez em quando reaparece. Nesse ponto é interessante pensar na história do BBJ da Boeing, que alguns dizem teria sido um pedido de diretores da GE.



Quando trazemos essa análise para a dívida pública, a gente
volta na dinâmica tradicional de que pouco importa o valor da dívida pública, o
que importa é a relação dívida/PIB se o PIB cresce, e o quadro de credibilidade
permite você manter essa taxa de juros equilibrada junto com o câmbio, a conta
de déficit não precisa fechar.

O PIB deve ser o foco da discussao, e em nossa analógia é o valor da ação de FB.



Ponto importante e particular da dívida pública é que ela
deve ser interessante mesmo depois que as consequências do mercado de FX entram
em cena, do contrário o país fica refém de emitir dívida em moeda estrangeira,
e no caso brasileiro a porta do FX é bem mais estreita do que o BC brasileiro parece conseguir
perceber, até porque o BRL tá longe de ser um par popular nesse mercado que é
coisa de 6tri USD/dia. Fora que toda a liquidez do BRL tá concentrada na B3,
então qualquer market maker fica com pouco espaço pra arbitrar e estabilizar
fora do contexto de B3, e esse é (no caso brasileiro deveria ser) um mercado
descentralizado.

Update: Esse argumento mais macro é bem livro texto, com a sistemática operacional de BC do Some unpleasant monetarist arithmetic, nem olhando tanto pras conclusoes. Mas na real o Fx é uma peça que faz falta ali, o que faz sentido já que não eh um problema numa perspectiva de FED, apesar que nessas ameaças de inflation GBP e CHF tem reações interessantes frente ao USD.



No mais, se uns conspiradores da inflação fazendo selloff de treasury já fizeram um barulho nos últimos dias, imagina se a China resolve acompanhar; é do deficit público que vem boa parte da integração global atual. (aliás Assistam Hamilton). 






Enfim, isso acabou sendo ideias jogadas ao vento, mas é um
pouco do que ando pesquisando e lendo.

Alguns links pra fundamentar, a maioria já tá no r/cecia , de resto vou atualizando aos poucos:

Several observations on capital flows in Japan - BIS papers No 15, part 9, April 2003

The Origins of the Eurodollar Market in London: 1955–1963 - ScienceDirect

The City of London: Geopolitical Issues Surrounding the World’s Leading Financial Center | Cairn International Edition (cairn-int.info)

The Overleveraged Economy of Iceland

Foreigners cut holdings of Brazilian public debt to lowest since 2009 | Reuters

UPDATE 1-LVMH set to raise $10 bln-plus from bond markets for Tiffany deal | Reuters (Yeld negativo)

__Pontos para reflexão:

  • A capacidade desses influxos de capital externo, impactarem no multiplicador monetário/bancário mesmo sendo em moeda estrangeira. Isso na medica em que essa criacao de moeda corre por fora do BC.
  • Na perpectiva progressista (econômica), existe(no BR) um cinismo em relação ao câmbio que através do silêncio dá respaldo a esse descontrole visto nos últimos tempos. Para além  do tradeoff juros-câmbio, o discurso parece mais centrado num ideário de  indústrialização distante da realidade,na medida em que o processo fábril vai caminhando na direção da commoditização e/ou da automação.

Monday, February 1, 2021

Dinheiro demais, valor de menos


Quanto dinheiro é dinheiro demais? Até que ponto os top
players do sistema corrente estão entregando a sociedade valor equivalente, em
comparação com o que dela retiram? É fácil questionar a fortuna de figuras como
Jeff Bezos, ou qualquer grande capitalista.



Por outro lado é difícil mensurar o valor que eles entregam
a sociedade. Marketscaps são números cada vez mais insignificantes, num cenário
de liquidez excessiva a qual não parece se fundamentar em incremento de valor a
sociedade. Comparando marketcaps em diferentes bolsas, fica óbvio que eles
refletem mais quão líquido é o mercado, do que alguma métrica real do que a
estrutura social-produtiva presente naquela empresa vale.




Via de regra o auge do capitalismo ocorre na fase industrial,
é quando ocorre o grande boom de renda. Isso pode ser percebido tanto na revolução
industrial inglesa, tão presente nos argumentos de Engels e Smith, e agora no
boom chinês.  Interessante se perguntar por
quê? É elemento comum nesses dois movimentos sociais a capacidade que eles têm de
agregar grande massa de pessoas em atividades produtivas. Você engaja tanta
gente quanto possível num intenso processo de geração de valor, o que pode
acontecer é que invariavelmente isso dá certo.




Em geral essas massas populacionais estavam previamente organizadas
em atividades de subsistência, ou no máximo em estruturas proto-indústriais focadas
em atender mercados fisicamente próximos.




Porém, o que se vê depois dessa fase industrial é um cenário
onde a produtividade é otimizada e cada vez menos gente é necessária. No fim o
foco do capitalismo acaba sendo produzir uma máquina de gerar valor com cada
vez menos gente envolvida no processo produtivo.




Ao invés de dar 1001 voltas, vamos colocar que segundo o statista
a receita por funcionário do Google foi de 160bi USD/120k =1,3kk USD e a da Boeing 76bi USD/ 160k = 472k USD em 2019. Se for olhar Embraer, chega aos 100k USD




É impossível gerar tanto valor sem uma estrita coordenação
social. Custa caro fazer pesquisa, a maior parte dela nunca vai se traduzir em
produtos, qualquer estrutura capitalista que tente atingir isso vai ser
ineficiente.




Olhando para a história recente é fácil perceber que o período
em que mais se gerou valor para a sociedade em termos de conhecimento foi no período
que se estendeu dos anos de 1940 até 1970. Para qualquer local no mundo que se
olhe você encontra uma estrita coordenação social para o desenvolvimento de
pesquisa, mesmo nos EUA,  é fácil esquecer que o Complexo Industrial Militar é elemento central para a economia do conhecimento que se estabelece, e é fruto de
um processo coordenado e em grande parte ( se não em sua totalidade) financiado
pelo governo na figura da OSRD (Office of Scientific Research and Development)
e de pessoas como o Vannevar Bush.




Em geral o único diferencial do caso americano, é que por ideologia,
essa pesquisa não foi internalizada no governo, apesar de paga por este.




Num momento em que  o ocidente parece superar a ideação de que a
China se aproximaria dos modelos de governo ocidentalizados, o modelotecnocrata chinês parece corrigir as falhas do modelo centralizador (na KGB e
no Próprio Stalin) presente na  união soviética, na medida em que pelo menos sob a
gestão atual o CCP não parece caminhar rumo ao totalitarismo, mas sim rumo a uma
tecnocracia, que por sinal se assemelha bastante ao que alguns historiadores costumam
atribuir ao OSRD de Vannevar Bush.




No ocidente enquanto continuarmos a rezar por uma cartilha de
cada vez menos coordenação social, estaremos condenados a uma estagnação que
vai selecionando indivíduos abastados que tem o tempo para buscar construir suas
maquinas de fazer dinheiro, com cada vez menos gente em sua estrutura.




Gerir pessoas é desafiador, o racional vai ser que os
agentes continuem a buscar múltiplos receita/funcionário cada vez maiores. O
que se vê hoje é que isso é executado via distorções no fluxo monetário/financeiro, se
traduzindo em bastante dinheiro para os operadores, mas pouco valor para a
sociedade.




Casos como Gamestop, em minha leitura, são um sinal de monetário
descasado da geração de valor. A bem verdade estruturas social-produtivas como
Amazon, Google e assemelhadas entregam valor para a sociedade ajudando a base de
empresas  a aumentar seus múltiplos de
receita/funcionários.




O ponto em que em nenhum momento histórico se conseguiu uma
resposta satisfatória, é o que fazer com uma massa de agentes que não encontra
espaços na atividade produtiva? Onde alocar o colarinho azul? O modelo militarizado
americano tem sido eficiente em alocar essa gente na guerra, e em atividades de
suporte, a própria união soviética não encontrou resposta tão diferente.




Tendo isso em mente é fácil entender como num sistema para
cada vez menos pessoas, que cresce majoritariamente com as distorções do fluxo
monetário, as ideias de Renda Básica Universal encontrem cada vez mais espaço seja
através de Andrew Yang ou mesmo de Eduardo Suplicy. Dinheiro torna-se apenas um
número na tela, sem contrapartida de geração de valor.




Em outros tempos o Google seria fruto do Complexo industrial
Militar, um caso de pesquisa que encontra uma forma de se traduzir em um
produto.

Wednesday, January 20, 2021

Reflexões sobre os trabalhos de colarinho azul, na era da automação e do pós-fronteiras

Eu parto do trecho Global poverty & open borders (5m50s)  de uma entrevista de 2015  que o Bernie deu pra Vox, no youtube o titulo é "Bernie Sanders: The Vox Conversation", pra construir algumas ideias sobre o futuro dos trabalhos de colarinho azul fronteiras e uma integração econômico-social que vai além de fronteiras politícas.


Aqui o vídeo já começa no minuto exato da pergunta em que esse argumento se desenvolve, de qualquer modo considerando o peso de figuras como a AOC em 2020, é valido entender de onde os próximos quatro anos estão partindo.



Monday, January 11, 2021

Rio: Potencialidades

O Rio de Janeiro sob um modelo de ZEE (zona econômica especial)poderia competir com o
Panamá em serviços financeiros sofisticados, e virar um player relevante nas bandeiras de conveniência (Marinha Mercante) o que sendo bem trabalhado  ainda tem potencial de gerar bons empregos
blue collar. Sem contar o imenso potencial que a Baía de Angra já possui numa outra
linha de náutica.



Vale lembrar que historicamente os tigres asiáticos
tornaram-se atrativos por oferecerem estruturas baratas para Banking, e hoje a
Geórgia ( país ), está discretamente replicando esse modelo com ofertas
interessantes em Private Banking.




Aliás uma reflexão válida é se muitos dos problemas do Rio,
nao vêm do fato de que a cidade e o estado , tem suas potencialidades em
setores que demandam uma intensa integração internacional (serviços
sofisticados e Náutica/Marinha Mercante), isso enquanto o Estado opera debaixo
da lógica de uma economia agroexportadora.




Obs: Por hora é uma reflexão, que admito, carece de leituras
mais profundas. Mas olhando a república do Leblon, a estrutura dos estaleiros
em Niterói e o que já existe em Angra, apesar das politicas restritivas que a
RFB e a Marinha impõem em compras de embarcações fora do Brasil. Parecepromissor para a formação de cluster.

Um risco é a formulação dos termos da ZEE, o foco deve ser
em serviços sofisticados e não em indústria. E principalmente na facilitação do
fluxo financeiro.




De modo geral, se o Rio conseguir segurar os recursos de
Royalties. e o petróleo mantiver alguma estabilidade na próxima década há boas
chances de que isso seja autofinanciável.


Referências

  • Demografia dos clientes, e do staff. Como as estruturas sociais
    (minorias ricas) e de propriedade (instabilidade política, direitos de
    propriedade frágeis) levam a um modelo que tem no offshore elemento central. No texto, Hong Kong ainda é uma potência, dentro do que se ê
    agora possivelmente este quadro está se revertendo.





Dufey, Gunter, Private Banking in Asia - A Survey
(August 28, 2009). 22nd Australasian
Finance and Banking Conference 2009, Available at SSRN: 
https://ssrn.com/abstract=1463261 or http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.1463261


  • Uma perspectiva mais floreada, baseada em entrevistas com
    players de Hong Kong (20114). Passa brevemente por uma transição do wealth
    managemente chinês de onshore para offshore via m&a’s com players em Hong
    Kong. No geral o texto é válido por trazer as dificuldades em precificação, e
    junto disso a necessidade que os players têm de melhorar a segmentação entre HNW
    (High Net Worth) e UHNW (Ultra High Net Worth) para fins de otimizar as
    margens.

Spotlight
on Hong Kong’s private banking sector, July 2014



https://home.kpmg/cn/en/home/insights/2014/07/spotlight-on-hk-private-banking-sector-201407.html

Ao longo do video ele aborda um pouco dessa naútica que seria um bom fit pra Angra (a nova George Town?). Sem contar que esses yachts empregam fácil 20-50 pessoas com diferentes níveis de qualificação.

 

Nos últimos tempos eu tenho achado meio fascinante como o investimento estrangeiro é uma coisa etérea e distante na discussão econômica que se faz no Brasil. Na China as pessoas buscam fábricas, na Alemanha o histórico de boa engenharia, no Uk as estutruturas de banking e os escritórios de direito perserguindo litígios dignos de Holllywood, em Singapura a estrutura de entreporto logistíco. E no Brasil? Aos poucos o agro vai se impondo como uma resposta [por hora excessivamente focada na produção/plantio(tem todo uma dimensão de indústria quimíca que basicamente inexiste no BR)],mas não é um bom fit para todo o Brasil, pelo perfil de desníveis é dificil imaginar alguma coisa como as grandes fazendas de MT, BA funcionando no Rio.

Não que as pessoas não tentem(Estudante de direito é preso por manter sítios com 1 mil plantações de skunk (metropoles.com)) , mas a regulação ainda não chegou lá e esse parece ser um fit de rentabilidade que talvez funcionasse bem no Rio. (Só pra critérios de comparação  Average area size for cannabis growing operations U.S. 2020 | Statista. é uma propriedade relativamente pequena, perto do que se faz em Agro no Brasil).


Esse post ainda está em construção logo estou sempre adicionando algumas referências.



The tissue of social relations in Brazil and economic complexity

 I often miss meeting people with an inner world. They are out there, but even as you get through them it’s usually hard to dive into their ...