Monday, November 23, 2020

Rio: Favela, violência e pobreza

 


O Rio de Janeiro é hoje um grande emaranhado de problemas nas
mais diversas dimensões. Em relação ao Brasil é também um caso recheado de
particularidades, por exemplo:Como explicar para alguém no interior de Mato
Grosso o racional que leva alguém a escolhe morar em uma favela? Numa cidade como
Rondonópolis, com 100k de reais compra-se uma boa casa num bairro comum
ou classe C, no Rio de Janeiro isso é uma casa em São Gonçalo ou na favela (dependendo
da favela esse valor talvez já esteja até datado).




Quando você coloca na conta, os fatores que vêm junto com São
Gonçalo, a favela parece uma opção cada vez melhor. Sendo um pouco mais
especifico, o município do região metropolitana sofre com um ciclo em que
pobreza gera pobreza, as classes mais abastadas da região (e aqui inclui-se o município
vizinhos de Itaboraí [ que por um tempo pareceu que ia criar identidade, mas
essa esperança morreu junto com o comperj])
invariavelmente acabam se
transferindo completamente, ou no mínimo direcionam o consumo para Niterói. Ponto
interessante é que essas classes mais abastada nem são necessariamente São
Francisco/Icaraí, por vezes acaba sendo Fonseca e a região de Pendotiba.  E isso muito por conta de questões básicas de
infraestrutura do município e qualidade de vida de modo geral.  




São Gonçalo ainda tem uma cesta de problemas que passa por um
transporte público e um déficit de identidade. No âmbito do transporte, basta lembrar
que a única parte do sistema que funciona bem é aquela que serve justamente para
sair de São Gonçalo. No âmbito de identidade, quando você observa o que
aconteceu com os subúrbios do Rio não é difícil perceber que em algum grau os
bairros ao longo da Avenida Brasil têm uma identidade, nem precisa ser muito,
só o suficiente para criar um pertencimento. Em São Gonçalo isso inexiste.




Ponto é que essa lista vai longe, e pode ser resumida na
perspectiva de que a única coisa que funciona em São Gonçalo é a saída, dá pra
pensar ainda que tudo acontece no Rio e algumas coisas acontecem em Niterói, o
que leva São Gonçalo a ser um grande vazio econômico.




Voltando ao ponto inicial de porque as pessoas escolhem a
favela, é uma questão de que tentar encontrar uma casa na banda dos 100k no Fonseca , pode ser uma tarefa árdua. E provavelmente o agente ainda vai ter de lidar com estresse de trânsito
e mobilidade sem contar o custo da mobilidade – Alguns conseguem lidar com isso
através de vale-transporte, mas como tudo acontece no Rio, esse “tudo” incluí até
o que vale-transporte não cobre, tipo cultura. Esse acaba sendo um ponto para a favela, por vezes bem localizada. Tem o Barreto, mas é um limbo de
Niterói com jeito de São Gonçalo e preços de Niterói. Um elemento adicional na análise é que elevando nosso
orçamento para uns 200k a cena não é tão diferente.




Quando você vai colocando todos esses elementos na conta; a
favela, vai ficando cada vez mais interessante. Mas é difícil explicar isso para
um Brasil que vê o Rio pela TV.




No âmbito da violência; diferente de São Paulo,  eu particularmente sempre tive a impressão de
que a coisa é bem mais simples do que querem fazer parecer – admito que há boas
chances de eu estar errando até porque existe um transição em curso para o modelo da milícia.
Mas quando você fala da violência em especial a que se faz mais notar noticiário e impacta o turismo no Rio –mais especificamente a violência da troca de tiros entre facções e a própria disputa entre esses agentes –
ela não é nem de longe tão estruturada quanto o que se formou em São Paulo ao
redor da facção principal.  Essa dualidade entre os modelos é central na percepção da violência nos dois Estados.


 Em São Paulo a estrutura é sofisticada e
possivelmente deve incluir, direta ou indiretamente, muita gente com passagem
pelas estruturas acadêmicas de elite paulista, até porque não é qualquer um que vai conseguir gerenciar o que você encontra no mondus operandi centralizador visto na facção paulista. 


No
Rio as estruturas criminosas são tão fragmentadas, e desorganizadas quando
comparado a São Paulo que no fim é muito mais uma disputa de macho-alfa do que de
fato uma estrutura que busca ser rentável. Não é que não dê dinheiro, mas na
prática quando você começa a olhar para o que está na cabeça das bases das
facções cariocas (isso olhando pra comentários sobre disputas de facções em vídeos
do youtube ou blogs que dificilmente ficam no ar por muito tempo) é uma disputa
de times , que se as pessoas envolvidas tivessem um pouquinho mais de condição financeira
dificilmente ia além do Counter-Strike.




Mas essas bases não têm estrutura financeira, estrutura familiar
e muitas vezes nem um teto digno. Aqui já da para passar por um ponto que a Favela
no Rio está longe de ser uma estrutura uniforme você tem comunidades que estão no
limite da miserabilidade (Porto Velho, São Gonçalo tem um bom exemplo disso) e
tem também quem só queira morar perto do trabalho (favelas próximas de áreas nobres cariocas).




Na perspectiva da disputa de macho-alfa, o tráfico em si não
gera a disputa, mas ele financia e da forma a essa disputa. Quando você soma as peças, em especial nesse de caso porto Velho, você chega em um quadro que
se retroalimenta. 


O cara é pobre tá rodeado de pobreza, e olha pro quão na
frente o cara que tá envolvido no tráfico salta na frente dele no “Marriage Market”(e esse termo, que de fato existe serve pra pular uma longa discussão), é apenas
uma questão de  seguir um racional básico
pra entender como o cara chega no tráfico.




As bases da criminalidade no Rio, são tão confusas, que é provável
que essa combinação de disputa de torcidas (que inclui certo acolhimento pela
facção), pobreza, hormônios e Marriage Market...em suma a disputa do macho
alfa, tenha peso bem maior do que a rentabilidade disso tudo.




A única solução sistêmica razoável, seria escolher os
vencedores e racionalizar a disputa em rentabilidade. De preferência vencedores
que você possa controlar através de alguma estrutura de inteligência.




E nisso a minha perspectiva é que quando você passa a ter
uma estrutura mais sofisticada, como você já vê em São Paulo, você chega a gerar
externalidades positivas: uma estrutura que percebe que chamar atenção das autoridades
com disputas e tiroteios dá prejuízo, então passa a optar pela descrição; uma
estrutura que pra lavar dinheiro cria empreendimentos que geram empregos.




Enfim, dá para ser bem mais puritano nisso tudo? Acho difícil,
o tráfico é o maior exemplo no mundo, de como o livre mercado não pode ser
derrotado através da burocracia estatal, aka canetada.

Thursday, November 12, 2020

Loja do mecânico

Um ótimo deal, só espero que não matem a plataforma buscando as margens do modelo de Marketplace, que definitivamente,...

Posted by Daniel Rodrigues Parente on Thursday, November 12, 2020

Wednesday, October 7, 2020

Projeto com LCD 16x2

 


A ideia é reproduzir o seguinte projeto do 8-bit-guy

 



Dado que a tela que a tela LCD vem da sucata de uma impressora laser, precisava ter certeza de que ela ainda funcionava





Então executei o projeto do link (link em PDF)


O LCD funciona bem, o detalhe é que ele não tem backlight, então apenas 14 pinos


Nos próximos estágios devo resolver a carcaça, provavelmente uma caixa de madeira (eucatex ou MDF) e comprar os interruptores.


Este post será atualizado

Monday, October 5, 2020

O Renminbi como reserva de valor, e o dinheiro irrastreável


Eu sempre acho meio estranho como a  galera desacredita o potencial do Renminbi, como reserva de valor, e da China como um todo. Um ponto que geralmente passa despercebido é o tamanho do mercado sob sanções americanas, apenas o Iran é uma sociedade do tamanho de duas Argentinas (e com relativa influência mesmo nas regiões mais americanizadas do Golfo-Persico) isso somado aos demais casos, mais o dinheiro irrastreável que não pode passar pelos EUA gera um enorme potencial  para ascensão do Renminbi enquanto reserva de valor. No final das Contas não é dificil imaginar que os cargueiros carregados de ouro fazendo o trajeto Moscow-Caracas-Tehran, possam virar transisações no sistema bancário Chinês, possivelmente em Macau. 

O ponto é que esse fenômeno possivelmente começaria em uma parcela da Economia de dificil rastreabilidae. E é provavel que em certa escala já esteja ocorrendo, a Coréia do Norte por exemplo tem uma série de empreedimententos pelo mundo, usados para adquirir reservas internacionais e importar artigos para o país através de empresas de fachada.No geral a lavagem do dinheiro vai ocorrer nos locais tradicionais, o dinheiro vai dar algumas voltas ao mundo até que seja irrastreável. Em geral isso vai invariavelmente passar por algum Banco Chinês, até pela relação que as elite da DPRK já tem com a China. 


O ponto chave é que quando uma empresa/país sob sanção americana precisar comprar suprimentos no mercado mundial ela vai usar uma empresa de fachada e talvez esse dinheiro já esteja passando pela China, até porque a única alternativa de porte equivalente seria a Rússia, e hoje a China parece uma opção mais estável. Pela natureza dessas operações não dá pra saber o tamanho dessas operações, nem mesmo se já não estão acontecendo. Mais invarialvemente a moeda que estiver sendo base dessas transações será a próxima reserva de valor mundial.


Trazendo isso para a realidade, o que é mais perceptivel hoje é o papel do EURO nesse tipo operação até pela facilidade da moeda transitar com relativa facilidade entre diferentes sistemas bancários sem conversões cambiais. Mas ninguém bota uma placa na porta com "Lava-se dinheiro sob sanção americana". 


Quanto mais politizado for o Dolar maior a chance dele ser substituido, afinal dinheiro não tem cor e em certos contextos nem origem.

Thursday, October 1, 2020

Palantir

 

Interessantemente nas útlimas interações que tive com as Big Three, elas pareciam estar caminhando em direção a...

Posted by Daniel Rodrigues Parente on Thursday, October 1, 2020

Saturday, September 26, 2020

A irracionalidade das relações globais

 


A grande realidade, que você precisa esquecer pra conseguir
viver é que isso aqui não faz sentido nenhum. E em tempos que os mecanismos de
Bretton Woods vão sendo testados, mas ainda se mostram resilientes em suas
bases, é válido trazer a tona o Trump como alguém que joga luz nesse vazio existencial
no qual a humanidade se insere. Se tem uma coisa que a economia ensina é que se
não dá para manipular e testar, provavelmente não existe, mas em busca de achar
alguma resposta, que em última instância é existencial, você ignora isso –
Ceteris Paribus – e parte para o próximo estágio.




Quando fenômenos sociais como o Trump e o próprio Bolsonaro
surgem eles se escoram no fato de que a sociedade é recheada de verdades amplamente
aceitas, que pouca gente entende. É como se transitássemos de um cenário em que
fingir entender para ser levado a sério perde relevância, a massa popular passa
a se identificar com a ignorância que o Trump expressa, o perigoso plot twist é
que a ignorância é motivo de orgulho.




Daí entre os lideres recém chegados, que não querem abraçar
a ignorância – afinal não chegamos neste nível de conhecimento, através do
orgulho de não entender as coisas – o que transpira é o vazio recheado de incertezas,
com os tons de quero fazer a coisa certa. Aos poucos vai nascendo um novo tipo
de politico que nos seus canais pessoais/sociais é muito transparente em suas
incertezas. Isso é positivo, essa desconstrução de que as verdades são únicas,
e que por simplesmente estarem no topo da cadeia alimentar social as pessoas
simplesmente sabem o que fazer.




O Brasil é um lugar onde basta as pessoas falarem com
convicção para que uma ideia seja abraçada. Você não precisa saber, mas precisa
demonstrar convicção ao apresentar sua ideia. Uma espécie de curso de 40 horas
de sofismo. É de se pensar que o fácil acesso a conhecimento fosse capaz de
derrubar isso, mas a verdade é que ignorância alimenta ignorância, e uma
história curta bem contada com palavras simples é bem mais digestível do que
verdade uma cinza entremeada de detalhes.




O Trump no final das contas é só alguém que tinha dinheiro suficiente
pra não precisar de dinheiro – e com isso vem o amplo acesso a mais dinheiro –
e passou a vida navegando nesse mar de privilégios. Tinha alguma ambição de
aceitação social, quase infantil, o que aliado a um discurso fácil que toca a ignorância
interior do americano médio...Pronto temos um presidente.




O interessante nesse tipo de discurso é que na maioria das
vezes ele é simples demais pra tá certo ou errado, é uma verdade rápida que o
business mind aceita pra tirar alguma conclusão maior.




O que mais me fascina no meio de toda essa irracionalidade
que viraram as relações internacionais, é o modo como a sociedade tem conseguido
se manter estável. Num momento como esse muito se questiona Bretton Woods, e o
peso que a economia americana ganha ali como fiador mundial, com um fundo com
nome banco e um banco com nome de fundo. Mas a bem verdade é que a ideia de ter
uma sociedade tão integrada que uma terceira guerra mundial fosse inviável,segue funcionando.




Acho que o único elemento que não foi planejado nessa
integração, é que ela iria além da dimensão econômica. Hoje o globo vive
basicamente sob uma única cultura, você pode ir da Thailandia a algum bairro
rico do Nepal e conversar sobre Game of Thrones. Quando a sociedade atinge tamanha
integração é difícil ver nacionalismos sendo mais que mera nostalgia, talvez
seja por isso que sociedades como China e Rússia ainda insistam em ter sua própria
internet. Se você extrapola a bolha cultural, o nacionalismo que mantém esses
sistemas políticos, deixa de existir. Nos EUA e no Brasil esse nacionalismo é
apenas uma nostalgia vazia. E aqui é interessante pensar em como a barreira
para uma plena integração global não é econômica é mera e simplesmente uma
barreira linguística. Só parar pra ver como o segredo é algo que praticamente
inexiste no Estado americano, enquanto na China sem muito esforço, ninguém sabe
muito em que pé as coisas vão por lá. Quanto ao Brasil, o mundo que já é indiferente,
para no português.




A alta política mundial sempre foi uma salada sem muito
sentido, o Trump entre resmungos e falas senis só fala em voz alta algo que as
pessoas já sentiam, mas tinham receio de admitir. No fim tudo parece óbvio, até
o que não é.

The tissue of social relations in Brazil and economic complexity

 I often miss meeting people with an inner world. They are out there, but even as you get through them it’s usually hard to dive into their ...